Ela estava sentada próxima a janela. Olhava seu vaso de flores miúdas e o bonsai que só nessa etapa da vida aprendeu a cuidar. Um pouco acima, um bebedouro para beija-flor. Ela quis um desses a vida toda, mas sua mãe dizia que atrairia pombos.
Ela estava com um pequeno brinco de pérolas e, por pirraça, mantinha os cabelos longos e brancos, presos num coque com grampos. Ela poderia ter pintado os cabelos, cortado à moda, curtos. Mas parecia gostar deles longos...
Ela vestia um vestido de flores e um casaco branco. As mãos, agora com unhas curtas e sem cor, afagavam, Vini, o gato.
Sim, ela tinha um gato. O gato era uma pirraça. Como se “ELE” pudesse saltar de sua memória para o presente e dizer: Ah Pára, eu ODEIO gatos.
Ela disse baixinho, como que para se defender: gatos são bonzinhos... Os olhos cheios de lágrimas. Um coração com mais saudades do que um ser humano seria capaz de sentir.
Ela se lembrou de um dia que o tempo não apagou. Ele estava deitado em seu colo, falando alguma coisa engraçada como sempre. Ela, mexia em seus cabelos. O clima intimista dessa lembrança causou em mim um certo constrangimento, afinal, o que fazia eu naquela casa, escondida em algum lugar que não conhecia, olhando aquela senhora novamente, tentando novamente descobrir algo sobre ela sem sucesso? Eu estava invadindo as lembranças dessa senhora. E essa “mágica” causava em mim uma dor de perda quase física.
A senhora parecia perceber. E se lembrou de seu primeiro beijo com esse homem engraçado.
Eu assisti, com o coração apertado, um beijo terno, desajeitado, seguido de um beijo na testa (dado por ele) e um beijo na mão dele (dado pela senhora, então jovem).
O olhar dos dois era algo como fogo e algodão. Eu nunca em minha vida havia presenciado tanta intensidade...
A senhora se levantou e se encaminhou para um quarto. A esse ponto, minha curiosidade já ultrapassara o limite da educação: eu estava seguindo a senhora pela sua casa. Entrou em um quarto e, em um quadro desses que a gente vê em colégio, com cortiça, haviam diversas fotos: um bebê de enormes olhos castanhos, uma adolescente solar, uma moça de cabelos longos e negros, uma família toda, cerca de 7 fotos de gatos diferentes, todos com a inscrição “Vini” abaixo da foto... Me perdi olhando tais fotos, reconhecendo alguns personagens naquele mural... até que vi a foto que ela observava:
A jovem de cabelos negros sorria e o rapaz engraçado a abraçava. Dava pra perceber que o rapaz era bem mais alto que a senhora. E possuia olhos claros mas a foto, propositadamente, era em preto e branco.
Ela acariciou o rosto do rapaz na foto com os olhos marejados.
Fiquei com tanta dó que fui abraça-la, perguntar o que tinha acontecido. Mas o despertador tocou. E chocada, eu acordei.
Antes de levantar as pressas novamente, percebi: a senhora era eu. As pessoas no mural, eram pessoas minhas. A moça de cabelos negros sou eu.
E essa senhora, que ultimamente tem invadido meus sonhos, parece querer me mostrar que não existe saída para isso que estou vivendo.
Aline Bridget
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