segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Pesadelo - Parte III

A senhora estava olhando seu mural de fotos.
Se perguntava em qual momento o havia perdido de vista. Lembrou todos os momentos em que teve absoluta certeza de que ele não a pertencia.
Lembrou de todos os dias em que disse que seria o ultimo em que falaria com ele.

Ela nunca o esquecera. Viveu outros poucos amores sem nunca esquecer o jeito doce do seu olhar ou o toque quente de suas mãos. Seu amor por ele era como uma doença crônica, uma maldição.

Ela balançou a cabeça, tentando fazer com que essas lembranças desaparecessem e sentiu de novo a mesma tristeza por desejar um abraço dele.

Tristeza aliás era um sentimento que sempre havia acompanhado essa senhora. Era visível e ela falava isso, por algum canal de comunicação, dentro da minha cabeça. Como uma transmissão de pensamento.

A campainha tocou e eram algumas pessoas que vinham felicita-la pelo seu aniversário. No bolo, duas velas com os números 7 e 6. As pessoas cantaram um parabéns a você lentamente, enquanto ela observava sorrindo.

Quando ela se curvou para apagar as velas, eu acordei e percebi que havia apenas cochilado.


Boa noite.


Aline Bridget

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A analista

Aqui estou eu, caindo na realidade, pedindo em oração pra Deus me mostrar pelo menos qual a porta. Porque eu dou conta de bater e pedir licença. Entrar devagarinho, ir me mostrando aos poucos.

Aqui estou eu, velha demais pra ficar aqui, jovem demais pra desistir. Ajudando pessoas, atrapalhando outras e perdendo o que há de melhor em mim, todos os dias.

Aquela ali, sou eu. Eu gosto de me olhar de fora, assim como vocês.
Dá menos vergonha quando a gente olha assim um fracasso alheio.
Entristece menos uma sequência de erros quando esses erros não são seus.

O tempo não espera ninguém. A voz totalmente lucida de minha avó repete isso toda noite insone em minha cabeça. Eu digo a essa voz que fico porque penso que talvez fechar uma porta e ficar parada numa rua seja tão perda de tempo quanto permanecer nesse cômodo vazio. Eu fico, porque sinto medo.

Certamente, nessa constatação, minha avó rebateria, agora totalmente brava, e me diria que mulher não deve sentir medo, que mulher já nasce para lutar, que mulher tem que cuidar da casa, do marido, dos filhos e ser uma profissional exemplar.

Eu sei que apenas choraria por não ser assim, uma mulher tão forte.
Eu desistiria de discutir com a voz imaginaria da minha avó antes tão autoritária e pediria colo.
Contaria para ela que eu tenho lutado bravamente para cuidar de mim. E isso tem consumido uma parte considerável do meu tempo. E dormiria.

Sonharia um sonho que já sonhei e não faz tempo.

Aquela moça lá em cima, na pedra mais alta, era eu.
Todos, inclusive uma parte muito importante de mim estavam se banhando no lago doce que corria abaixo. Olharam em choque para cima uma única vez: Eu observa lá de cima.
Tinha medo de descer pela trilha.
Tinha medo de pular e aprender a voar.

Observei até não haver nada mais para olhar. Esperava que essa outra parte minha (que desconheço até hoje) viesse me encontrar.

Mas ela nunca veio. Seguiu em frente antes que o dia terminasse.
Se perguntassem por mim, provavelmente ela responderia:

Por enquanto, eu vou deixa-la lá.
Por enquanto, eu desisti dela.

Eu acordaria assustada. Reclamaria qualquer injustiça. E seguiria para a mesma vida que tem me deixado cada dia mais perto da morte.

Aline Bridget





quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Feliz Aniversário, meu amor!

‎"- Será bonito, sabes? Eu também olharei as estrelas. Todas as estrelas serão poços com uma roldana enferrujada. Todas as estrelas me darão de beber…
- Será tão divertido! Tu terás quinhentos milhões de guizos, eu terei quinhentos milhões de fontes…"
(Exupery)

sábado, 6 de agosto de 2011

Solidão

Essa solidão que acompanha e desloca, desfoca a visão.
As vezes, a gente não pede nada da vida: apenas que por algum momento alguém seja capaz de compartilhar algo conosco.
Compartilhar uma opinião, uma idéia, uma paixão, um objetivo.
As vezes, a gente pede pro universo só alguém pra olhar nos olhos sem precisar esconder nada.

Essa solidão pode enlouquecer. Nada é mais enlouquecedor do que ser um soldado solitário.
Nada é mais solitário do que enlouquecer por alguns ideais.

Essa solidão que acompanha em silêncio, desloca. As vezes, a gente se acostuma com longos momentos sem falar e se esquece de escolher as palavras certas.
As vezes, por tanta solidão, a gente dá os recados errados pras pessoas erradas.
Porque essa solidão as vezes trancafia a gente num quarto escuro e nossa visão se desacostuma a ver as  pessoas como elas realmente são.

Essa solidão que desloca a gente e separa como se já não fizéssemos parte da feliz comédia teatral, as vezes cega.
A gente se acostuma tanto a não ser mais parte daquela peça que já nem procura mais motivo para ser parte de alguma coisa.
A gente se acostuma tanto com o "Não ter motivos" que já não há mais esforços. Pelo menos, não mais esforços que devam ser ditos. Até porque não haveriam palavras.

Essa solidão que enlouquece, causa risos em alguns e preocupação em outros.
Mas ela não é assim, um bicho de sete cabeças.
Zombar de um estado de espírito como esses é desperdiçar a oportunidade de conhecer profundamente uma pessoa que sozinha, aprendeu muito sobre si.
Preocupar-se com um estado de espirito como esses não livra ninguém de senti-lo algum dia.

Essa solidão que enlouquece e segrega, também ensina.
E hoje estou apta para aprender a próxima lição.

Aline Bridget

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Maluquices

"Espero que você possa perdoar
Essa maluca mania que eu tenho
De falar enlouquecidamente qualquer coisa
Só pra fingir
Que não fico enlouquecidamente perturbada
Com sua presença."

Aline Bridget