Aqui estou eu, caindo na realidade, pedindo em oração pra Deus me mostrar pelo menos qual a porta. Porque eu dou conta de bater e pedir licença. Entrar devagarinho, ir me mostrando aos poucos.
Aqui estou eu, velha demais pra ficar aqui, jovem demais pra desistir. Ajudando pessoas, atrapalhando outras e perdendo o que há de melhor em mim, todos os dias.
Aquela ali, sou eu. Eu gosto de me olhar de fora, assim como vocês.
Dá menos vergonha quando a gente olha assim um fracasso alheio.
Entristece menos uma sequência de erros quando esses erros não são seus.
O tempo não espera ninguém. A voz totalmente lucida de minha avó repete isso toda noite insone em minha cabeça. Eu digo a essa voz que fico porque penso que talvez fechar uma porta e ficar parada numa rua seja tão perda de tempo quanto permanecer nesse cômodo vazio. Eu fico, porque sinto medo.
Certamente, nessa constatação, minha avó rebateria, agora totalmente brava, e me diria que mulher não deve sentir medo, que mulher já nasce para lutar, que mulher tem que cuidar da casa, do marido, dos filhos e ser uma profissional exemplar.
Eu sei que apenas choraria por não ser assim, uma mulher tão forte.
Eu desistiria de discutir com a voz imaginaria da minha avó antes tão autoritária e pediria colo.
Contaria para ela que eu tenho lutado bravamente para cuidar de mim. E isso tem consumido uma parte considerável do meu tempo. E dormiria.
Sonharia um sonho que já sonhei e não faz tempo.
Aquela moça lá em cima, na pedra mais alta, era eu.
Todos, inclusive uma parte muito importante de mim estavam se banhando no lago doce que corria abaixo. Olharam em choque para cima uma única vez: Eu observa lá de cima.
Tinha medo de descer pela trilha.
Tinha medo de pular e aprender a voar.
Observei até não haver nada mais para olhar. Esperava que essa outra parte minha (que desconheço até hoje) viesse me encontrar.
Mas ela nunca veio. Seguiu em frente antes que o dia terminasse.
Se perguntassem por mim, provavelmente ela responderia:
Por enquanto, eu vou deixa-la lá.
Por enquanto, eu desisti dela.
Eu acordaria assustada. Reclamaria qualquer injustiça. E seguiria para a mesma vida que tem me deixado cada dia mais perto da morte.
Aline Bridget
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
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