quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O que é felicidade para você?



Seja como for, seja sempre meu amor.
Terás sempre meu amor, mesmo que diga que não o quer.
Morarás sempre em meu coração, mesmo que diga que mora no seu prédio.
Será sempre minha luz, minha alegria e o moço que me faz sorrir sozinha pelos cantos.

Estará sempre em minhas orações, em minhas brincadeiras e em meus assuntos.
Será sempre meu bebê, meu super herói, meu mini grande homem, minha alegria.
Porque você chegou assim, sem aviso. De inicio com um sorriso sem dentes tentando me conquistar. Depois com um dentinho só. Depois muitos.
Depois com uma musiquinha, e várias, uma cor, milhares.... E gradativamente, eu fui abrindo espaços para você em meu coração... Coração esse que agora já não sabe mais o que é vida sem suas angelicais bolhas de sabão e flores que jogas e perdes pelo caminho, fazendo de seu próprio caminho de pureza e ingenuidade, uma grande lição para adultos que como eu, ainda não aprenderam a ser crianças.

Amo você mas do que jamais imaginei amar um ser. Inadvertidamente. E incondicionalmente.

Aline Bridget

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Transitório

...É mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir...

(Ana Carolina)

sábado, 20 de novembro de 2010

Felicidade e Alegria

“Ser alegre (muito melhor do que ser feliz) é gostar de viver mesmo quando a vida nos castiga”

Quando eu era criança ou adolescente, pensava que a felicidade só chegaria quando eu fosse adulto, ou seja, autônomo, respeitado e reconhecido pelos outros como dono exclusivo do meu nariz.
Contrariando essa minha previsão, alguns adultos me diziam que eu precisava aproveitar bastante minha infância ou adolescência para ser feliz, pois, uma vez chegado à idade adulta, eu constataria que a vida era feita de obrigações, renúncias, decepções e duro labor.
Por sorte,

1) meus pais nunca disseram nada disso; eles deixaram a tarefa de articular essas inanidades a amigos, parentes ou pedagogos desavisados;

2) graças a esse silêncio dos meus pais, pude decretar o seguinte: os adultos que afirmavam que a infância era o único tempo feliz da vida deviam ser, fundamentalmente, hipócritas;

3) com isso, evitei uma depressão profunda pois, uma vez que a infância e a adolescência, que eu estava vivendo, não eram paraíso algum (nunca são), qual esperança me sobraria se eu acreditasse que a vida adulta seria fundamentalmente uma decepção?
Cheguei à conclusão de que, ao longo da vida, nossa ideia da felicidade muda:

1) quando a gente é criança ou adolescente, a felicidade é algo que será possível no futuro, na idade adulta;

2) quando a gente é adulto, a felicidade é algo que já se foi: a lembrança idealizada (e falsa) da infância e da adolescência como épocas felizes.
Em suma, a felicidade é uma quimera que seria sempre própria de uma outra época da vida -que ainda não chegou ou que já passou.
No filme de Arnaldo Jabor, “A Suprema Felicidade”, que está em cartaz atualmente, o avô (extraordinário Marco Nanini) confia ao neto que a felicidade não existe e acrescenta que, na vida, é possível, no máximo, ser alegre.
Claro, concordo com o avô do filme. E há mais: para aproveitar a vida, o que importa é a alegria, muito mais do que a felicidade. Então, o que é a alegria?
Ser alegre não significa necessariamente ser brincalhão. Nada contra ter a piada pronta, mas a alegria é muito mais do que isso: ser alegre é gostar de viver mesmo quando as coisas não dão certo ou quando a vida nos castiga. É possível, aliás, ser alegre até na tristeza ou no luto, da mesma forma que, uma vez que somos obrigados a sentar à mesa diante de pratos que não são nossos preferidos ou dos quais não gostamos, é melhor saboreá-los do que tragá-los com pressa e sem mastigar. Melhor, digo, porque a riqueza da experiência compensa seu caráter eventualmente penoso.
Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para nós mesmos. Alguém perguntará: é reconhecível como?
Pois é, para quem consegue ser alegre, a lembrança do passado sempre tem um encanto que justifica a vida. Tento explicar melhor.
Para que nossa vida se justifique, não é preciso narrar o passado de forma que ele dê sentido à existência. Não é preciso que cada evento da vida prepare o seguinte. Tampouco é preciso que o desfecho final seja sublime (descobri a penicilina, solucionei o problema do Oriente Médio, mereci o Paraíso).
Para justificar a vida, bastam as experiências (agradáveis ou não) que a vida nos proporciona, à condição que a gente se autorize a vivê-las plenamente.
Ora, nossa alegria encanta o mundo, justamente, porque ela enxerga e nos permite sentir o que há de extraordinário na vida de cada dia, como ela é.
É óbvio que não consegui explicar o que são a alegria e o encanto da vida. Talvez eles possam apenas ser mostrados: procure-os em “Amarcord” (1973), de Federico Fellini, em “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003), de Tim Burton ou no filme de Jabor. “A Suprema Felicidade” me comoveu por isto, por ter a sabedoria terna de quem vive com alegria e, portanto, no encantamento.
Segundo Max Weber (1864-1920), a racionalidade do mundo industrial teria acabado com o encanto do mundo. Ultimamente, bruxos, vampiros, lobisomens, deuses e espíritos andam por aí (e pelas telas de cinema); aparentemente, eles nos ajudam a reencantar o mundo.
Ótimo, mas, para reencantar o mundo, não precisamos de intervenções sobrenaturais. Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo.

(Contardo Calligaris na Folha de São Paulo 18/11/2010)

Acima temos um texto que acredito ser importante o bastante para ser compartilhado.

Aline Bridget


Reflexão

É aqui que eu encontro a contradição que não sei solucionar. Porque a grandeza do homem não é feita somente do destino da espécie: cada individuo é um império.

(A Espanha Ensanguentada do Livro Um sentido Para a Vida de Antoine de Saint-Exupery)


Do contexto do francês que mais amo na vida fica fácil perceber: Existem reis de ninguém e impérios vazios, desprovidos de leis ou governantes.

Aline Bridget


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Carta ao bom velhinho

Querido Papai Noel,

Esse ano eu não fiz xixi na cama, tomei banho sozinha, não maltratei os animais, joguei o lixo no lixo e não fiz malcriação para minha mãe.
Papai Noel, eu confesso que fiz algumas birras e as vezes chorei a toa quando estava triste. Confesso que quebrei alguns brinquedos sem querer, mas na maior parte do ano eu cuidei bem e guardei tudo, tirei boas notas na escola, respeitei os professores e não arrumei brigas com ninguém.

Como vê, fui uma boa menina... Será que não mereço um presente antecipado (independente do natalino?)

Pois bem, caso eu mereça, gentileza providenciar que esse ano acabe logo. Porque eu não aguento mais esse 2010. Prometo ser boazinha assim também em 2011.

Obrigada Papai Noel. E até a Noite Feliz de Natal.

Um beijo,

Aline Bridget

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Coragem

Ai que de ansiedade sofro... Sofro mas não morro.
Assim como não morro de saudade.
Se morrer, será de bala perdida, de carro atropelante, de tombo alucinado da escada.

Da maldade, eu desvio. Da falta de compreensão eu apenas fujo. Também não vou morrer porque alguém não me estendeu a mão.
Não morro de inveja. Tampouco morrerei por mau olhado, mau pensado, mau falado, mau agouro.

Não morro de raiva, não morrerei de tristeza e nem velha morrerei de medo.

Sou do time dos fortes, dos que vivem e não apenas sobrevivem, dos que têm consciência e acima de tudo sou daqueles que confiam desconfiando e não perdem tudo se perdem o apoio.
Na minha terra, seguro morreu de velho e um abraço cura qualquer ferida.
Na minha terra, existe o bom dia! e o por favor.

E acima de tudo, na minha terra, existe o amor e a crença no amanhã.

De rancor, não morro.
Não maltrato meu coração com sentimentos ruins.
De ciúmes, não padeço.

Corro sim, atrás do que mereço e faço por merecer.
E as pedras que me jogam, eu largo onde estão. Meu castelo é feito com as flores do caminho. E da alegria que é minha oração em todos os momentos.

Aline Bridget

sábado, 13 de novembro de 2010

Pés cansados

"Sou só uma moça que assume que errou, assume que perdeu tempo indo numa rua reta sem fim. Sou só uma moça que vai continuar seguindo por essa rua (como se sabe não se pode voltar) até encontrar uma travessa. Não precisa ser uma grande avenida. Pode de verdade ser uma rua deserta. O que importa é chegar ao fim desse caminho errado. E começar a caminhar no caminho certo."


Aline Bridget

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Enquanto espero...

Há dias em que o acaso (ou o motivo escondido) prepara um cenário perfeito e propício para uma novela cotidiana: São dias em que sentimos que de tudo o que vivemos, somos meros fantoches, com nosso papel pré definido. Um trapalhão, um sedutor, uma dona de casa com a mão nas cadeiras.
Há dias em que o menor de nossos atos provocam uma reação em cadeia. Interferência ou participação previamente agendada?
Há dias em que o inexplicável toma conta do que deveria ser só mais um dia normal. Cotidiano.

Há dias que a chuva nos impede de sair ou de voltar para casa.
Geralmente esses são os dias em que mais precisamos sair ou voltar.
A sensação de estar ilhado é amedrontadora. E a vontade de ficar e se esconder onde quer que esteja é grande.

Devemos considerar que a chuva uma hora estia. Se não o fizer completamente, basta esperar que ela acalme... uma garoa não mata ninguém. Há dias que devemos memorizar para não esquecer: somos fortes.

Eu poderia discorrer bem mais sobre o teatro da vida e o espetáculo que foi meu dia.
Mas a chuva acalmou e eu quero muito ir pra casa.

Uma boa noite de chuva, querido diário.

Aline Bridget

domingo, 7 de novembro de 2010

Chaplin

"A vida me ensinou...
A dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração;
Sorrir às pessoas que não gostam de mim,
Para mostrá-las que sou diferente do que elas pensam;
Fazer de conta que tudo está bem quando isso não é verdade, para que eu possa acreditar que tudo vai mudar;
Calar-me para ouvir; aprender com meus erros.
Afinal eu posso ser sempre melhor.
A lutar contra as injustiças; sorrir quando o que mais desejo é gritar todas as minhas dores para o mundo.
A ser forte quando os que amo estão com problemas;
Ser carinhoso com todos que precisam do meu carinho;
Ouvir a todos que só precisam desabafar;
Amar aos que me machucam ou querem fazer de mim depósito de suas frustrações e desafetos;
Perdoar incondicionalmente, pois já precisei desse perdão;
Amar incondicionalmente, pois também preciso desse amor;
A alegrar a quem precisa;
A pedir perdão;
A sonhar acordado;
A acordar para a realidade (sempre que fosse necessário);
A aproveitar cada instante de felicidade;
A chorar de saudade sem vergonha de demonstrar;
Me ensinou a ter olhos para "ver e ouvir estrelas",
embora nem sempre consiga entendê-las;
A ver o encanto do pôr-do-sol;
A sentir a dor do adeus e do que se acaba, sempre lutando para preservar tudo o que é importante para a felicidade do meu ser;
A abrir minhas janelas para o amor;
A não temer o futuro;
Me ensinou e está me ensinando a aproveitar o presente,
como um presente que da vida recebi, e usá-lo como um diamante que eu mesmo tenha que lapidar, lhe dando forma da maneira que eu escolher."

sábado, 6 de novembro de 2010

Múltipla Escolha...

Um palco é uma escada, um corredor, um poço: esta ali desde quando nascemos, com chão firme ou lajes escorregadias – que no correr do tempo a gente vai transformando numa cadeia de tentativas, erros, acertos e acasos.

O que se abre para nos junto com cada uma dessas portas – o que ali vai se desenrolar por decisão nossa, seja ela vitoria ou desastre -, que aposentos vão se elaborar, em que pátios vamos caminhar, em que águas vamos nos afogar, talvez?

Vamos encontrar material previamente depositado, ou seremos depois boicotados pela fatalidade, nessa tarefa de ordenar espaços, colocar assoalho, erguer paredes, abrir janelas (e mais portas), inventar personagens além disso que seremos?

Talvez haja insetos rastejantes que tem de ser eliminados, vozes e recados que não entendemos (há que se apurar o ouvido), olhos nem sempre bons espreitando no escuro (vai ser preciso também instalar alguma luz).

No ar. Pendendo sabe se lá em que estrutura apenas esboçada, esta o nosso roteiro a ser cumprido: cada um do seu jeito, conforme nossa visão e informação, possibilidades e projetos. Sem esquecer a coragem para escolher, a cultura em que estamos metidos, as leis a que nos submetemos e as vezes em que soubemos escapar do comodismo.

Há que ter alguma coragem. Há que tem algum sonho correndo nas veias, e um grão de loucura faiscando na alma. Ou apenas desejo de viver a vida em vez de ser arrastado por ela como uma criança puxa atrás de si, na poeira, um brinquedo sem graça.

Mas nós temos graça. Nós fazemos a vida. Falhamos em muitas decisões (portas soltas nos gonzos, portas que dão em lugar nenhum, portas que não abrem) e isso vai da ideologia ao emprego, ao lugar onde morar, ao amigo e ao amante. Mas a gente pode sempre avaliar alguma coisa.

(Não tudo: a vida não é tão generosa assim.)

Por cálculos malfeitos desperdiçamos tempo e experiência – mas se não formos nem tolos nem rígidos demais, se o pessimismo não nos dominar, podemos ter um amor bom se perdemos o que estava ruim, ou foi roubado pela morte. Podemos ter uma vida nova, se deixarmos a outra, tormentosa e falsa. Podemos ter um novo projeto de trabalho (até ganhando menos), se o anterior não satisfazia mais.

Podemos mudar um mínimo lapso que seja até mesmo do universo, ainda que ninguém perceba, nem nós mesmos, porque estamos cegos para a importância do mínimo.

Aprendemos que, por mais que os tempos mudem e os costumes se alterem, as emoções humanas continuam as mesmas: da Coréia à Finlândia, do Congo a Amsterdã, todos queremos significado, segurança e harmonia.

Podemos nos anistiar se erramos feio, se formos medrosos, quem sabe cruéis. Podemos – e devemos – ser indivíduos para alem do que nos quer ensinar nossa cultura, para alem do que ordenam nossos governos, para alem das propagandas, das regras e convenções da nossa tribo, todos nós querendo um acomodado rebanho fácil de comandar. Querer decidir, não sempre aceitar, exige audácia e fervor – gosto dessas duas palavras. (...)

A quem achar que sou demais romântica ou demais pessimista, direi que nem uma coisa nem outra: escrevo sobre a morte porque desejo a vida e, sobre a dor porque acredito na possível alegria. Falo das minhas preocupações porque tenho esperança; espreito a sombra porque acredito em alguma claridade que justifique o universo. Comento dramas familiares porque considero esse núcleo o chão para sempre. (...)

Somos fracos, somos poderosos, somos assustados mas nunca completamente bobos. Eu acredito nisso. Antes que tudo desande, antes que tudo acabe, seremos mais do que escravos carregando de um lado para outro, sem saber porque, cenários de uma peça que nem terminou de ser escrita.

E se concluída, não teria nada a dizer.

(Capítulo Final do Livro Múltipla Escolha - Lya Luft)

Tive que transcreve-lo aqui. Tenho lido esse capítulo incansávelmente desde ontem, tentando entender as decisões que preciso tomar. Deixar o medo de lado. Fazer acontecer como manda o figurino. Tenho esse livro há quase um ano sem nunca ter conseguido finalizar a leitura. Faltava tempo, no montante das tarefas infundadas que tenho que executar.

Compartilho com os poucos que me lêem. Sem motivo, porque não acredito que exista em qualquer parte do mundo, lendo meu blog ou não, alguém que precise tanto dessas palavras quanto eu mesma.

Aline Bridget

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Creio que ele aproveitou para evadir-se, pássaros selvagens que imigravam....

A prova de que existe justiça é a mudança.
Mudança de planos, mudança de sentimentos, mudança de situações.
A prova de confiança que podemos dar a Deus, o tempo ou a quem quer que seja, é a paciência.
Toda situação é passageira. A boa, a ruim e a normal.
Demandas incontroláveis perdem totalmente o sentido com o tempo. Hoje vivo isso como experiência própria.

Veja bem, a sensação de perda de tempo é horripilante. No meu caso, foram anos de perda de tempo em um sonho e em um ideal que não prestavam. Não serviam.
Ontem, o que tomava conta do meu ser era culpa. Vontade de voltar no tempo e fazer tudo certo. Segunda chance era minha demanda.

Hoje, chego na linha de chegada (dessa corrida, pelo menos). Vitoriosa: posso estar atrasada mas cheguei inteira. Nem machucada estou.
Chego hoje a conclusão que não valeu a pena tal vivência e tal espera. Mas valeu a experiência.
Valeu por saber que sou só uma moçoila. Com sentimentos e necessidades super humanas.
Valeu por perceber que todo coração pode ser reconstruído e com o tempo, toda dor pode ser cicatrizada.
Valeu por perceber que as vezes, tentamos nos responsabilizar por situações que não nos dizem respeito. Cada ser aprende e se torna o que quiser se tornar. Veja bem, eu também já sofri. E não me tornei monstro algum. A vivência foi a mesma e é a mesma para milhares de pessoas no mundo: Geral já sofreu por algum motivo como rejeição, desamor, traição e etc.
O que cada um é capaz de fazer com o que aprendeu é que faz a diferença. Diferença entre os fortes. E os fracos que vão se proteger eternamente.

E por fim, valeu por perceber que o passado pode até ser relembrado. Mas na maioria das vezes, não deve ser revivido.

Aline Bridget

Obs.: O título é do Exupery - Sobre o momento que o Pequeno Principe abandona o Asteróide B612.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Texto nada meu...e nada mal.

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido.
Uma só!!
Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa.
Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.

O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.

A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.
A gente sai pra jantar, mas come pouco.
Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.
Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').
Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.
Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.
Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar.
E por aí vai.
Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação...

Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão...

Às vezes dá vontade de fazer tudo 'errado'.
Deixar de lado a régua,
o compasso,
a bússola,
a balança
e os 10 mandamentos.

Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.
Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: 'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'...

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo. Um dia. Não tem que ser agora!

Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate, um sofá pra eu ver 10 episódios do 'Law and Order', uma caixa de trufas bem macias e o Richard Gere, nu, embrulhado pra presente.

OK? Não necessariamente nessa ordem!

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago...

Obs.: é possível encontrar esse texto como "Duas bolas, por favor?" e autoria atribuída a Danuza Leão. Ou "Pudim" e autoria atribuida a Martha Medeiros. Eu desconheço a autoria mas conheço de cor essa sensação.