sábado, 6 de novembro de 2010

Múltipla Escolha...

Um palco é uma escada, um corredor, um poço: esta ali desde quando nascemos, com chão firme ou lajes escorregadias – que no correr do tempo a gente vai transformando numa cadeia de tentativas, erros, acertos e acasos.

O que se abre para nos junto com cada uma dessas portas – o que ali vai se desenrolar por decisão nossa, seja ela vitoria ou desastre -, que aposentos vão se elaborar, em que pátios vamos caminhar, em que águas vamos nos afogar, talvez?

Vamos encontrar material previamente depositado, ou seremos depois boicotados pela fatalidade, nessa tarefa de ordenar espaços, colocar assoalho, erguer paredes, abrir janelas (e mais portas), inventar personagens além disso que seremos?

Talvez haja insetos rastejantes que tem de ser eliminados, vozes e recados que não entendemos (há que se apurar o ouvido), olhos nem sempre bons espreitando no escuro (vai ser preciso também instalar alguma luz).

No ar. Pendendo sabe se lá em que estrutura apenas esboçada, esta o nosso roteiro a ser cumprido: cada um do seu jeito, conforme nossa visão e informação, possibilidades e projetos. Sem esquecer a coragem para escolher, a cultura em que estamos metidos, as leis a que nos submetemos e as vezes em que soubemos escapar do comodismo.

Há que ter alguma coragem. Há que tem algum sonho correndo nas veias, e um grão de loucura faiscando na alma. Ou apenas desejo de viver a vida em vez de ser arrastado por ela como uma criança puxa atrás de si, na poeira, um brinquedo sem graça.

Mas nós temos graça. Nós fazemos a vida. Falhamos em muitas decisões (portas soltas nos gonzos, portas que dão em lugar nenhum, portas que não abrem) e isso vai da ideologia ao emprego, ao lugar onde morar, ao amigo e ao amante. Mas a gente pode sempre avaliar alguma coisa.

(Não tudo: a vida não é tão generosa assim.)

Por cálculos malfeitos desperdiçamos tempo e experiência – mas se não formos nem tolos nem rígidos demais, se o pessimismo não nos dominar, podemos ter um amor bom se perdemos o que estava ruim, ou foi roubado pela morte. Podemos ter uma vida nova, se deixarmos a outra, tormentosa e falsa. Podemos ter um novo projeto de trabalho (até ganhando menos), se o anterior não satisfazia mais.

Podemos mudar um mínimo lapso que seja até mesmo do universo, ainda que ninguém perceba, nem nós mesmos, porque estamos cegos para a importância do mínimo.

Aprendemos que, por mais que os tempos mudem e os costumes se alterem, as emoções humanas continuam as mesmas: da Coréia à Finlândia, do Congo a Amsterdã, todos queremos significado, segurança e harmonia.

Podemos nos anistiar se erramos feio, se formos medrosos, quem sabe cruéis. Podemos – e devemos – ser indivíduos para alem do que nos quer ensinar nossa cultura, para alem do que ordenam nossos governos, para alem das propagandas, das regras e convenções da nossa tribo, todos nós querendo um acomodado rebanho fácil de comandar. Querer decidir, não sempre aceitar, exige audácia e fervor – gosto dessas duas palavras. (...)

A quem achar que sou demais romântica ou demais pessimista, direi que nem uma coisa nem outra: escrevo sobre a morte porque desejo a vida e, sobre a dor porque acredito na possível alegria. Falo das minhas preocupações porque tenho esperança; espreito a sombra porque acredito em alguma claridade que justifique o universo. Comento dramas familiares porque considero esse núcleo o chão para sempre. (...)

Somos fracos, somos poderosos, somos assustados mas nunca completamente bobos. Eu acredito nisso. Antes que tudo desande, antes que tudo acabe, seremos mais do que escravos carregando de um lado para outro, sem saber porque, cenários de uma peça que nem terminou de ser escrita.

E se concluída, não teria nada a dizer.

(Capítulo Final do Livro Múltipla Escolha - Lya Luft)

Tive que transcreve-lo aqui. Tenho lido esse capítulo incansávelmente desde ontem, tentando entender as decisões que preciso tomar. Deixar o medo de lado. Fazer acontecer como manda o figurino. Tenho esse livro há quase um ano sem nunca ter conseguido finalizar a leitura. Faltava tempo, no montante das tarefas infundadas que tenho que executar.

Compartilho com os poucos que me lêem. Sem motivo, porque não acredito que exista em qualquer parte do mundo, lendo meu blog ou não, alguém que precise tanto dessas palavras quanto eu mesma.

Aline Bridget

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