terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Pesadelo

Ela estava mais uma vez num cinema. Vicio que carregou por toda a vida.
Sentou-se novamente num lugar bem ao centro, visão total da tela, desligou seu telefone e esperou pacientemente pelo filme.
Olhou nas poltronas abaixo e viu diversos casais conversando ou em momentos íntimos de carinho. Sentiu de novo os olhos marejados por tudo aquilo que não teve.
As escolhas na vida dessa senhora a levaram a uma vida de espera. Por conta própria abriu mão de um amor novo, de ir ao cinema de mãos dadas, de planejar, de viver. Por um juramento que havia feito. Por um amor que durante a vida toda esperou voltar.
Ela olhou todos aqueles casais num chamego só, enquanto o cinema tocava ao fundo uma música clássica (mania dos cinemas fazerem isso, mesmo após cinquenta anos). E chorou. Como não havia chorado a vida inteira, chorou pelo peso dos anos. Pelos sonhos que não realizaria mais. Pelos filhos que não teve.
Chorou porque foi jovem. E só se lembrava do seu unico amor. Dos momentos vividos com ele num cinema assim como esse, na hora da música clássica também. 
A vida dessa senhora havia tachado esses momentos de puro crime e pecado: a condenação foi não mais tê-los.
Ela enxugou as lágrimas e o filme não começava.
Nem trailer, nada.
Era uma lição que a senhora tinha que aprender ali, na sala de cinema.
Começaram os trailers finalmente. A senhora enxugou os olhos já enrugados e tentou se concentrar nos filmes que seriam lançados em breve.
O filme começou e nele a mesma provação: amores que as pessoas viviam. E ela não. Não poderia mais.
Não havia vivido nenhum desde que ele se fora. A senhora viveu uma vida de espera. De entrega. De lembranças. Por escolha dela.
Mas quando o filme acabou, uma comédia romântica do jeito que ela amava, sempre havia amado, seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Ela esperou que todos saissem: a música final das comédias românticas era sempre uma baladinha gostosa.

Antes do final das letras que sobem, ela já havia se levantado para ir embora.
E antes que ela chegasse a porta, eu acordei aos prantos.

Aline Bridget

Um comentário:

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