domingo, 23 de maio de 2010

Lar é onde está seu coração...


Um dia me disseram que os encontros mais improváveis são os que mais abrem portas, mesmo que sejam as do coração.

Há cerca de 2 anos, por intermédio de um trabalho acadêmico, um encontro abriu uma porta do meu coração e me fez enxergar o que quero de verdade fazer na vida. Eu demorei até entender o insight que tive. Achei que fosse só um encantamento momentaneo. Hoje, é óbvio para mim: só encontrarei a satisfação pessoal plena quando trabalhar (voluntariamente ou mesmo em regime CLT) com idosos.
Sei das dificuldades. E sei que todos os que me ouvem falar dos meus queridos velhinhos, me olham de esguelha, quase emitindo um "só faltava essa". Mas quem não se comove com um olhar que já viu muita coisa, já sofreu, já riu, já foi feliz e agora fica meio que à espera do momento de morrer?
Eu tento entender os motivos dos familiares que abandonam os seus à própria sorte, nesses lugares que tem nome de lar mas em grande parte são depósitos de gente à espera de sua senha. 1524? Sou eu, adeus amigos, agora morrerei.

Um dia por semana de visita abate o peso na consciência? Há familiares que sequer comparecem nesses dias.
Vi, em uma de minhas visitas, um senhorzinho todo cheiroso, sentado próximo ao portão esperando sua filha. Ele ficou exatas 2 horas esperando, o horário acabou e ela não apareceu.
Desconheço a história de vida. Esse senhor pode ter espancado a filha a vida inteira. Ou não. Mas não justifica abandona-lo. Não justifica tamanho descaso com quem tem tão pouco hoje.
Envelhecer não significa se preparar para morrer. Um idoso não precisa necessariamente sentar em seu sofá com seu cobertor esperando sua senha chegar. Há limitações, obviamente. O corpo já não tem a vitalidade da juventude, o companheiro morre, amigos morrem. Mas ainda há vida.

Costumo ter conversas com minha avó. Sobre coisas de agora, sobre fatos de sua infância, sobre suas dores, seus afazeres, suas indignações. São tantas lições que aprendo em uma frase que ela diz, que eu fico achando que minha avó é a própria reencarnação de Gandhi.
É muita sabedoria para um só ser que nunca estudou, nunca soube sequer escrever seu nome.
Teria eu, ou alguém de minha família, coragem de coloca-la num asilo, simplesmente porque as vezes ela some pelo quintal e volta cheia de hematomas por qualquer esbarrão?
Deveriamos "guarda-la" nesse lugar porque sua pressão arterial sobe demais ou desce demais e seus esquecimentos sobre fatos corriqueiros são frequentes?
E o amor, onde fica?

Há casos e casos, já se sabe.
O lugar que visitei, que realizei um trabalho e criei vinculos de amor (apenas de minha parte, pois eles esqueceram-se de mim no dia seguinte) se chama "Lar Santo Alberto". Não há indícios de maus tratos e os idosos até conseguem confraternizar entre si.
Quase todos tem Mal de Alzheimer. A unica excessão é um senhor que tem mal de Parkinson. Me lembro de sua timidez ao derrubar um copo de refresco que eu, muito atrapalhada, entreguei em sua mão. Ele é o único que tem consciência de sua condição ali. E por isso é o que mais é alvo de minha preocupação.
Os outros, ainda acham que são donos da casa ou simples empregados. Tem uma senhora que garante ter um namorado gago, uma outra senhora que me pediu carona para ir embora para o Bom Retiro. E por aí vai, a lista é infinita.

A casa pede, aos que a visitam e que sentem tocar o coração, qualquer tipo de ajuda financeira, bem como fraldas e alimentos. Acima de tudo (e o que mais falta), pede voluntários para conversar, fazer companhia, expulsar a solidão desse lar. Eles pedem também voluntários para manutenção na casa (carpir, trocar lâmpadas e etc) porque a mão de obra é escassa.
As pessoas que lá residem, nada pedem. Olham com olhar de experiência de vida. E olham com olhar de quem quer ser tratado sem dó, sem pena. Olhar de quem quer ser tratado com dignidade e decência de quem lutou a vida inteira e agora merece antes de caridade, amor e respeito.
Vale uma visita:
Lar Santo Alberto
Rua Prof. Dorival Dias Minhoto, 231 - Lauzane Paulista (Em frente ao Shopping Santana Park)
Tel.: 11-2236-1418
(Confirmar horário de visita no telefone pois as informações que tenho podem estar obsoletas.)

Breve histórico da casa:

Criada em 1983, o lar santo Alberto é uma entidade beneficente sem fins lucrativos que atende idosos acima de 60 anos, sem distinção de sexo, raça ou credo religioso.

Inicialmente o lar ficava num casarão do bairro do Morumbi, porém devido ao tamanho da casa e a quantidade de escadas mudaram para o bairro Lauzane Paulista em 1987, onde se encontram até hoje.

Com uma estrutura física privilegiada o lar propicia aos internos espaços para convivência e agradáveis momentos em contato com a natureza, além da equipe médica e de enfermagem sempre presente.

Atendendo hoje 56 idosos, dentre os quais 35 mulheres e 21 homens, o lar é mantido pela Associação Santo Agostinho - Asa e encontra-se carente principalmente de trabalho voluntário.

Vídeo do Grupo Open Mind


Então é isso. Em certos momentos, temos muito amor parado dentro de nós. Nessa casa, facilmente encontramos pessoas para doar e colocar todo esse amor em movimento, afinal, como eu sempre digo, amor é verbo!

Bora amar!

Aline Bridget


Um comentário:

  1. Sabe o que eu fiz... Chorei!!! Seique tem muito amor a oferecer e fico feliz por querer se dedicar a quem já não espera muito da vida...

    Amo você e conte sempre comigo afinal com você eu vou até o fim...

    ResponderExcluir

Gostou do que leu? Não gostou e eu mereço uma crítica?
Tudo bem... talvez eu chore, mas eu ainda vou gostar de você
Escreva nesse quadradinho abaixo...E não esqueça de assinar...
Obrigada!